Babel Magazine

Article about Sabrina Barrios’ artwork written by curator Daniela Mattos (PT only) /// Matéria sobre o trabalho da artista plástica Sabrina Barrios, texto da curadora Daniela Mattos

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Sobre ter água nos olhos – em torno da obra de Sabrina Barrios

por Daniela Mattos

Em regiões áridas é preciso buscar água em camadas profundas do solo. Ela
está lá, disponível e potável, mas é necessário escavar muito para alcançá-la e sorvê-
la, num esforço que por vezes precisa ser coletivo, noutras pode também ser
individual. A prática artística nunca foi tarefa simples e torna-se ainda mais complexa
em momentos de crise – e isso não é novo – historicamente artistas precisaram,
desde sempre, atentar para que suas obras não fossem inteiramente capturadas pelos
interesses fetichizantes do mercado e das instituições, ao passo que sua
sobrevivência enquanto indivíduos pudesse ser garantida, bem como a autonomia
poética e crítica da arte se mantivesse preservada. Se pensarmos nesta questão
fazendo um recorte de gênero, raça e classe, isso se radicaliza ainda mais: artistas
mulheres necessitaram lutar e seguem na luta para garantir seu espaço e o
reconhecimento equânime de seus trabalhos por parte de um sistema que reproduz as
opressões estruturais presentes na sociedade em geral, algo que apenas nas últimas
décadas têm se problematizado de fato. É o engajamento de artistas mulheres e de
coletivos voltados para estas questões, que têm demonstrado o quanto ainda
precisamos rever as práticas e a história da arte, que reproduzem compulsoriamente
valores eurocêntricos e estadunidenses, desconsiderando culturas e saberes
ancestrais indígenas e afrodiaspóricos.
A potência do feminino, também na arte e na cultura, é algo que vêm
resistindo de modo às vezes silencioso e noutros bastante ruidoso, pelo esforço e
colaboração entre pessoas interessadas em transformar as estruturas vigentes, seja
na arte ou na vida. Independente dos obstáculos, aquilo que liga tais práticas se
mantém e redesenha o que está dado, o que está – aparentemente – visível ao redor.
Surgem então com suavidade, mas com incrível força, outras formas e maneiras de
olhar e de compreender o mundo, num movimento no qual deve-se apenas confiar:
fiar junto, como faziam as moiras da mitologia grega, ou como seguem fazendo
diariamente as fiandeiras no interior do Brasil. É com esta potência do fiar junto, de
produzir redesenhos do mundo, de nós, do outro, que a artista Sabrina Barrios
desenvolve suas obras. Nas instalações, pinturas, desenhos, fotografias, bem como
em obras em que a artista combina estas linguagens simultaneamente, percebemos
que nada está dado, há sempre linhas por serem delineadas, recombinadas, que
surgem como camadas sobrepostas por meio da ação quase alquímica desdobrada
no processo de trabalho de Sabrina. Há neste emaranhado, derivações de elementos

identitários de uma certa brasilidade – as figuras do losango e do círculo, presentes na
bandeira brasileira, são utilizadas pela artista, que decompõe e espacializa estes
símbolos (nunca de maneira literal) para propor outros olhares e sentidos, como por
exemplo, o entendimento de como estas formas se relacionam com as dinâmicas e
entrelaçamentos entre feminino e masculino. Ao olhar para o trabalho de Sabrina
Barrios estamos sempre numa espécie de espiral de significações e sentidos, tudo
escapa para que justamente escape também o senso comum, o modo de olhar
formatado e por vezes treinado que nos é imposto cotidianamente, para que de
nossos corpos surjam novas linhas de força que impulsionem a confiança no que
vemos ali, (re)tecendo a nós mesmos por meio das obras que vemos.
Radicada em Nova York desde 2009, Sabrina voltou ao Brasil em meados de
2018 para realizar duas residências artística no Rio de Janeiro, no Despina (espaço
independente de arte sediado no centro do Rio, que promove residências, exposições
e cursos livres em torno da arte contemporânea, feminismo e ativismos), bem como na
Casa Amarela Providência (iniciativa localizada no Morro da Providência, que
desenvolve ações culturais, sociais e educacionais voltadas à esta comunidade, em
parceria com convidados locais e externos). Ainda que sua prática nos últimos anos
tenha se desenvolvido de maneira individual, o projeto produzido pela artista na Casa
Amarela Providência se realizou de modo colaborativo, incorporando a participação
moradores locais, em especial jovens e crianças. Nesta abertura de seu processo de
trabalho individual à outras pessoas, bem como na ocupação de um espaço externo
não convencional, aberto e público (bem diferente do tradicional cubo branco comum
às instituições de arte) com linhas, formas e planos também presentes em projetos
anteriores da artista, cria-se mais um camada de significação: a dimensão da partilha
do fazer artístico, antes primordialmente individual, que se torna ainda mais plural.
Não se deve perder de vista, no entanto, que o projeto realizado na Casa Amarela da
Providência teve Sabrina Barrios como autora e propositora; mesmo assim abre-se
com sua iniciativa compartilhada a noção de pertencimento coletivo da arte, algo que
certamente será potencializado pelos relatos das crianças e jovens que vivenciaram a
construção da obra e, ao passarem à frente tal experiência, a endereçarão a outros
imaginários porvir.
É urgente: em tempos áridos é preciso (re)inventar a nós e ao mundo, produzir
arte em outras frentes, sejam elas mais silenciosas ou ruidosas. Este é um esforço
coletivo e individual, consecutivo e/ou simultâneo e perene. Por certo a arte se
mostrará, hoje e sempre, presente, disponível, potável e pública, como a água sob as
camadas profundas do solo, ou como numa dispersão que precipita invisível: a
umidade relativa do ar.

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Sabrina Barrios talks about Feixe (Beam, 2018) at Casa Amarela Providência

In this video (PT only) I talk about my experience living in a favela (slum) in Rio de Janeiro, Brazil, where I’ve immersed myself to understand the lives of those who are never heard.

/// Sobre a minha vida na favela da Providência (Rio) e o que eu aprendi morando lá. Tudo traduzido em arte–que cumpre seu papel de resistência e grita alto por democracia.

Video: Crio.Art

Feixe

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Há alguns meses venho subindo o morro da Providência (Rio de Janeiro), para entender um mundo até então tão distante. Aí eu mudei para lá e vivenciei uma outra realidade. Dessa experiência nasceu a obra Feixe (2018), uma experiência imersiva de 4 andares no Morro da Providência, criada com muito suor e com a indispensável ajuda das crianças da comunidade.

Para quem tiver no Rio (principalmente no centro): não esqueça de olhar para a lua!

Partidos opens TONIGHT in Rio, Brazil

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Part II of a trilogy about the artist’s journey between the extremes in Rio, Brazil.
Opens tonight, August 24, 7–10pm at Despina (Rua do Senado, 271, Lapa, Rio de Janeiro, BRA).
All invited!

Plano de Fuga on view in Rio de Janeiro

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On view at Marques456
Marques de São Vicente, 456, Gávea, Rio de Janeiro, BRA

Finissage on August 18th, Saturday, 4–8pm
All invited!

About my journey in Rio

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Brasil Despedaçado (Shattered Brazil); 2018

Since April I’ve been living in Rio, city that used to be Brazil’s capital and to this day things that might or might not work in the country are tested here first. In February the military took the streets and Brazilians are questioning the real reason for that.

For context, our society is politically divided between the rich and the poor, each having their own perspective–very distinct from the other. A lot has happened since the coup in 2016 that at this point people no longer listen to one another. On top of that intolerance, we’re expecting to have elections this October, though there’s a risk they may not happen. And that would be a repetition of the 1964 (military) dictatorship, that lasted until 1985.

With that in mind and to create work that is relevant because it speaks to all Brazilians NOW; and by using art as an instrument to depict these issues; I’m immersing myself in both worlds, that of the rich and that of the poor. I will be navigating a wealthy area in Rio for a while, then a favela (slum).

My goal is to understand how each side comprehends the world and to point out that even though we all claim to want the best for our country, we are in fact breaking it; and that the only way to fix this is by working together.

The works “Coup D’état”* (2016) and “Brasil Despedaçado” (Shattered Brazil) depict these two recent moments in our history, the first being the cause of the second.

*Coup D’état (2016; strings, fishing wire, UV light; NY)
vimeo.com/178979851

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Sobre minha jornada no Rio_
Em Abril deste ano mudei para o Rio, cidade que costumava ser a capital do Brasil e até hoje coisas que podem ou não funcionar no país, são testadas aqui primeiro. Em fevereiro, os militares tomaram as ruas e os brasileiros estão questionando a verdadeira razão para isso.

Para contexto, nossa sociedade é politicamente dividida entre ricos e pobres, cada um com sua própria perspectiva. Muita coisa aconteceu desde o golpe de 2016 que as pessoas já não se ouvem mais. Para piorar essa intolerância, existe a dúvida da eleição presidencial em outubro, que pode nem acontecer. E isso seria uma repetição da ditadura militar de 1964, que durou até 1985.

Com isso em mente e para criar um trabalho que seja relevante porque fala com todos os brasileiros AGORA; e usando a arte como um instrumento que ilustra essas questões; é parte do meu processo de imersão, enquanto no Rio de Janeiro, estudar e entrevistar os dois lados de um país dividido social e politicamente. Por isso nos próximos meses vou viver duas realidades, morando entre a Zona Sul carioca e a favela da Providência, a mais antiga da cidade.

Meu objetivo é entender como cada lado compreende o mundo e salientar que, embora todos nós afirmemos desejar o melhor para nosso país, estamos de fato quebrando-o; e que a única maneira de corrigir isso é trabalhando juntos.

As obras “Coup D’état” (Golpe de Estado)* (2016) e “Brasil Despedaçado” retratam esses dois momentos recentes da nossa história, sendo o primeiro a causa do segundo.

*Coup D’état (2016; linhas de costura branca, linha de nylon, luz ultravioleta; NY)
vimeo.com/178979851