A Razão | interview with Sabrina Barrios

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25 de Julho de 2016 | Brasil | por Rodrigo Ricordi

This interview is in Portuguese only /// Entrevista em Português

Depoimento na íntegra da Artista Sabrina Barrios para o jornal A Razão de Santa Maria, RS, Brasil (versão sem cortes):

Nasci (1981) e cresci em Santa Maria, onde estudei Desenho Industrial–Programação Visual (UFSM). Quando criança, expressava com mais precisão aquilo que sentia e pensava no papel, desenhando. Na época de colégio era como “verbalizava” minha rebeldia, fazendo caricaturas dos professores e postando anonimamente pelos corredores. Aos 21 fui morar em Londres, vivi com um monte de gente num ape pequeno, trabalhei num bar e aprendi a me virar. Precisei me adaptar a uma cultura diferente e argumentar em uma língua que não era a minha. Viajei pela Europa e fiz grandes amigos. Vivi, experimentei o novo, conheci pessoas inesquecíveis com as quais convivi por algumas horas. Expandi meus horizontes. Voltei inspirada!

Em 2004 mudei para São Paulo e trabalhei com design gráfico e ilustração na MTV, Ed. Abril e Globo–Condé Nast. Em 2009 vim para Nova York (onde moro desde então) fazer mestrado em Artes Plásticas. A decisão de redirecionar minha carreira veio da conclusão de que criar designs que ilustram as palavras de outras pessoas não era ideal para mim. Digo isso porque trabalhei com jornalismo e vi de perto a corrupção das grandes corporações. Perdi a fé, mas decidi não me calar.

Como artista, falo o que penso e comunico de uma forma inclusiva, em que o espectador tem espaço para questionar–ao invés de simplesmente concordar ou discordar.

A minha arte é conceitual e eu inicio qualquer projeto com muita pesquisa. Estudo ciência (mais precisamente física quântica, que foca no mundo microscópico), cosmologia (foca no cosmos, no mundo macroscópico), história (o que aprendemos na escola como sendo uma verdade incondicional versus investigações que sugerem que um país vitorioso em uma guerra, por exemplo, passa a contar a história que quer, do jeito que lhe servir melhor), alquimia (antigamente vista como ciência) e metafísica (filosofia do ser no universo), e traduzo tudo em arte. Na verdade é como se eu fosse uma esponja, que após absorver tanta informação–que é super abstrata, já que ninguém sabe nada concreto–preciso de alguma forma jogá-la de volta para o mundo, para comunicar, questionar o que é aceito como real, e instigar as pessoas a pensarem por si próprias.

O resultado dessa pesquisa se dá em desenhos, pinturas, videos, instalações e experiências imersivas.

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Yuga Cycle (2015) | Nova York

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Yours Truly (2016) | Málaga

Trabalho em várias plataformas porque cada uma comunica algo distinto. Enquanto minhas pinturas são conectadas com o corpo, com emoções e memórias, com o instinto humano-animal, minhas instalações têm um tom meditativo–apesar de matemático e estruturado. Representam o cosmos, o consciente e inconsciente coletivo, o espaço infinito. Há também um desapego ao tempo devido ao impacto quase sublime da estrutura geométrica–que é enorme!–e da luz ultravioleta. As instalações não duram muito até serem completamente destruídas–enquanto pinturas vivem mais tempo do que o homem. São peças únicas, criadas para um determinado local e sua comunidade. São uma tentativa de tornar o momento importante, significativo. De proporcionar experiências e manter as pessoas presentes.

Quando crio vídeos, todavia, eu uso o tempo de maneira diferente, já que posso acrescentar uma nova imagem a cada segundo.

E como é importante comunicar o tema maior, tenho criado experiências imersivas, onde as pessoas navegam a instalação multimídia (constituída de videos, instalações, desenhos e/ou pinturas) e utilizam toda sua capacidade de percepção, não apenas o olhar. Usam o corpo e a mente, num quebra-cabeça composto por diversas obras de suportes distintos, conectadas conceitualmente.

Essas experiências imersivas normalmente acontecem em prédios antigos, abandonados ou em construção, onde o local é parte fundamental da obra. Talvez por isso meu trabalho seja tão bem recebido na Europa, em cidades como Berlim e Flensburgo (Alemanha), Málaga e Madri (Espanha), Aabenraa (Dinamarca) e Bruxelas (Bélgica).

Inclusive estava morando em Bruxelas em Março deste ano, quando os ataques terroristas aconteceram. Minha vernissage estava marcada para 2 dias depois dos bombardeios. Não havia transporte, as polícias cívil e militar estavam armadas nas ruas e a população não sabia o que esperar.

Como minha obra é criada no local–e se eu não estou presente, ela simplesmente não existe–precisei caminhar (sozinha) durante 1:30h em meio às áreas investigadas, para trabalhar. Passava o dia construindo e à noite, mais 1:30h no escuro para voltar para casa. Todo esse esforço porque eu acredito que a arte pode unir, inspirar e levantar o espírito de uma população arrasada. Eu insisti, tive ajuda de artistas locais, e a exposição aconteceu. Porque a mensagem que essa instalação imersiva passava era importante, falava sobre segregação entre as pessoas, e portanto precisava ser compartilhada.

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The Horse Rider and The Eagle (O Cavaleiro e a Águia, 2016) | Bruxelas

Em Abril, tirei férias e fui para o Brasil. Cheguei em São Paulo (depois de um vôo de 12h de Paris) e imediatamente me juntei ao povo que protestava pela democracia. Se tive energia para lutar na Bélgica, não poderia me calar no Brasil. Acredito que seja obrigação do artista contemporâneo retratar os fatos do mundo de hoje, fazer parte da criação da nossa história. Nossa voz é relevante e deve ser usada.

Além de São Paulo, estive em Brasília, no Rio e em Porto Alegre, entrevistando pessoas locais e jornalistas, para entender o que me parecia ser um golpe similar ao de 1964. O resultado dessa investigação materializou-se em arte. Ou, mais precisamente, em 2 exposições imersivas que representam a minha luta (ainda que de longe) pelo meu país.

Essas instalações têm caráter político e são complementares. Enquanto uma se chama “Coup D’etat: How They Did It” (Golpe de Estado: Como Eles Conseguiram), a outra é “Coup D’etat: How To Resist” (Golpe de Estado: Como Resistir). Essas instalações foram criadas em locais diferentes em Nova York, mas são conectadas por uma ponte que liga 1964 a 2016.

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Eu vejo essas obras como completas só quando o observador decide participar da experiência (ou seja, percorrer a instalação). Pois é assim que o interesse pelo conceito aumenta, graças à obra sentida com o corpo, graças ao momento vivido. E as pessoas podem tomar decisões enquanto dentro da estrutura geométrica, que como num labirinto, nem sempre tem uma saída visível.

Vejo arte como uma experiência inclusiva, para todos. Necessária nas nossas vidas, porque ela comunica, inspira, permite com que voltemos a ser crianças ao mesmo tempo que nos possibilita expandir perspectivas. Arte é um instrumento pacífico de luta, reflexão e mudança.

///

Mais informações: sabrinabarrios.com

Novos projetos: Visita ao atelier da artista, todo Sábado via Snapchat (sabrina.barrios) e Instagram (@sabrina_barrios)

Palestras, 6 de Agosto em Wassaic, NY, e 10 de Setembro, Snug Harbor Cultural Center, NY

Entrevista no site da A Razão: arazao.com.br/noticia/78341/inspirada-por-e-para-o-mundo/

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